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"Não me lembro de viver em Portugal um clima tão pestilento. O líder do segundo partido com mais representação parlamentar apela à caça ao imigrante, o insulto e a ameaça tornaram-se rotina, a reversão de direitos até agora vistos como fundamentais defendida sem qualquer pejo, a ignorância glorificada, a mentira vista como recurso político legítimo. Sobretudo a terrível sensação de que se muita gente já defende posições aberrantes abertamente, muita gente ainda tem algum pudor, mas não deixará em breve de se juntar a esse grupo.
A democracia não sobrevive a este ambiente. Aliás, é por isso que ele é criado. Bem sei que as redes sociais promovem o conflito e os sentimentos extremados; não desconheço que termos deixado de frequentar os mesmos espaços físicos nos desumanizou. Mas seja por causa de tudo isso, tenha sido por outra razão qualquer, quem quer destruir a democracia liberal aproveita-se disso para criar mais dissensão, porque sabe que uma comunidade em que as várias partes não se respeitam, nem se veem sequer como integrantes do mesmo propósito, está pronta para um ditador, alguém que imponha a ordem e os “verdadeiros” valores. Um acontecimento como o assassinato de um profeta é a circunstância perfeita para que se venda que direitos e garantias são desculpas para os inimigos atacarem os nossos…
A democracia pressupõe respeito pelos adversários, mas impõe mais: que exista um vasto chão comum, uma partilha de valores, uma noção de que o outro verá as suas posições vencerem em algum momento e que isso é normal e integra decisivamente a lógica democrática. Não é à toa que pedir-se ou prometer-se a prisão de um opositor político é parte da cartilha dos populistas. Ora, se o outro é inimigo, se é o mal, se é antipatriótico, a sua possível vitória será sempre uma ameaça existencial, portanto tem de ser eliminada.
Não há esquerda e direita nestas circunstâncias. O que há é quem queira que a democracia liberal sobreviva e quem não queira, seja de direita ou de esquerda.
Não há nada de bom no fim ou na pausa nesta dicotomia, porque sem ela inevitavelmente quem quer o fim da democracia vai ganhar. E quando o voto popular der a vitória aos autocratas, não volta, de certeza absoluta, a dar à democracia"
Acabei de saber que durante a visita ao Alentejo, o Presidente da República vai a Cuba. Vai deixar Portugal para visitar um país comunista?
Isto está mesmo uma bandalheira.