Demorei um pouco mais do que o previsto, mas finalmente lancei o terceiro livro da série O Quarto Mistério: Erro da Realidade. Esse realmente é especial para mim, porque inclui ideias relacionadas a tudo que eu considero importante ou interessante. Talvez alguns que leiam venham a chorar como eu, minha irmã ou a Ágata choraram em algumas partes.
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Assisti à Odisseia do Nolan. Eis a minha opinião, tentando ser o mais justo possível: não é a obra prima que o Rotten Tomatoes diz que é, nem o desastre que o Twitter diz que é. A verdade é que é um filme do Christopher Nolan mais do que é uma adaptação da Odisseia, sendo que as partes genuinamente boas do filme são mais pela Odisseia do que por ser um filme do Nolan.
As atuações de alguns dos personagens principais, como Penélope e Telêmaco, são boas. O Odisseu é sério e deprimido demais (por ser um protagonista do Nolan). O retorno de Odisseu a Ítaca é apropriadamente emocionante, mas então vem o discurso em que ele "revela" que a tripulação dele é o povo do mar (supostamente responsável pelo fim da Idade do Bronze) e faz referência quase explícita ao Colapso da Idade do Bronze e à Idade das Trevas Grega. Essa é simplesmente a pior cena do filme, com uma conexão forçada e uma tentativa falha de agradar quem gosta de história.
Tem ainda a questão da controvérsia envolvendo a Helena/Lupita, Atena/Zendaya e Elliot Page, mas não acho que isso atrapalha tanto a qualidade do filme quanto outros fatores. Assim como o Odisseu do Nolan, o filme tenta ser sério e sombrio demais, com cenas desnecessariamente grotescas como a de Circe, e com uma falta generalizada de luz e cor em tudo.
Ainda assim, para quem não se importa com controvérsias ideológicas, história ou com a Odisseia original, ainda é um filme competente e assistível. 6/10.
Essa nota da comunidade foi um dos melhores exemplos que eu já vi de pedantismo bem aplicado.
Mas ele nem é necessário. Se ficção não tem nenhum compromisso com verossimilhança ou "realidade" (coerência com as regras do mundo construído na narrativa), que se coloque então o Aragorn numa Honda CG 125 na próxima adaptação do Senhor dos Anéis. Se a audiência reclamar, é porque é ludita, inimiga da tecnologia, motofóbica e não sabe nada de arte.
Um diretor está perfeitamente livre para fazer escolhas provocativas, inclusive com uma mensagem política. Quando Orson Welles colocou a atriz negra Eartha Kitt para interpretar Helena numa peça de teatro em Paris em 1950 (não era a Odisseia, contudo), provavelmente parte da mensagem era uma crítica provocativa ao racismo. Na época, era corajoso, talvez necessário, como o beijo do Capitão Kirk e a Tenente Uhura em Star Trek (1968).
Em tempos pós-identitarismo, contudo, a escolha de Lupita Nyong'o é mais do mesmo. É mais lida como covardia: um diretor se conformando a uma moda que domina Hollywood há mais de uma década. Uma moda que sempre foi hipócrita, já que ninguém aceitaria uma troca racial no sentido contrário. Alguém deu o exemplo do filme Deuses do Egito (2016) com europeus os interpretando. O exemplo cai com a cara no chão, pois foi um dos filmes mais criticados por troca racial quando foi lançado. Ele confirma a hipocrisia das normas sociais identitárias que dominam as artes, não é contraexemplo.
A escolha de elenco não é um dos pontos mais importantes da adaptação de Christopher Nolan, contudo. O problema é não assumir que é provocativo, fingir que é uma escolha perfeitamente banal, e culpar a audiência que, de forma talvez hipersensível e equivocada, está cansada da lacração e de ser acusada dos piores delitos morais por críticas que os próprios progressistas identitários fizeram, inclusive no exato exemplo do filme sobre deuses egípcios.
Uma parte da audiência não quer Lupita como Helena porque também não quer Tom Cruise como samurai: viola a verossimilhança da história e prejudica a suspensão da descrença — como Harry Potter atirando em Voldemort com uma submetralhadora Uzi. Outra parte muito menor não quer Lupita como Helena porque é racista. O truque do identitarismo nas artes, já batido pois praticado há mais de uma década, é confundir propositalmente a última parte com a primeira parte.
Oi, autor.
O senhor tem razão num ponto trivial: a Odisseia não é reportagem. Mas do fato de haver deuses e monstros o senhor deduz que o poema "não deve obrigação nenhuma", e é aí que teu argumento (e arrogância) desanda.
Como você sabe, "fantasia" é gênero moderno, cristalizado entre o Romantismo e Tolkien, definido por contraste com o romance realista e a não-ficção. Aplicá-lo a um poema do século VIII a.C. é anacronismo, e sem ofensas, bem estúpido.
Para o mundo arcaico não existiam a prateleira "fantasia" nem a prateleira "história". A épica era o arquivo da cultura — memória genealógica, teologia, direito, geografia, ética —, o que Jan Assmann chama de mnemohistory, como o senhor, um autor, deve saber.
Daí a falsa escolha que o senhor nos oferece: ou o poema é fato verificável, ou não deve obrigação a coisa alguma.
Bom, falta o terceiro termo, o da épica: a verdade não-factual. A Odisseia não responde pela cronologia de um regresso; responde pela xenía, a lei sagrada da hospitalidade, pelo nostos, pela medida entre mortais e deuses. Para o grego, mythos era um modo de dizer o verdadeiro, e não o seu contrário.
Nesse sentido, Homero é hiper-realista. Foi Auerbach, no primeiro capítulo do seu clássico "Mímesis", quem mostrou que o estilo homérico ilumina cada gesto com precisão táctil — a jangada de Odisseu montada prancha por prancha, o banquete servido peça a peça.
O maravilhoso está vivo em um tecido etnográfico que a arqueologia confirma: o capacete de presas de javali, os ritos, a estrutura do oikos, o fundo micênico da Idade do Bronze. Dizer que o poema não tem compromisso com o real é não ter olhado para a sua textura com o devido respeito. Você desrespeita Homero.
No fundo, o senhor lê Homero viciado pelas fantasias que você mesmo escreve e pela história científica, e conclui que o poema "não se importa". O que é estranho para um autor.
@elivieira E ele ainda diz "collapsing", como se já soubesse que o Colapso da Idade do Bronze, um evento marcante diferente de uma transição gradual, já fosse iminente.
@tiagob_reis@elivieira Não, não faz sentido. Eles não teriam referência de outras eras, como a do cobre ou o neolítico, para fazer a delimitação de "Idade do Bronze".
As resenhas do Odisseia de Nolan já estão do jeito esperado: antiwokes aumentando o quanto o filme lacra de um lado; do outro progressistas com acesso privilegiado a Hollywood compensando por isso exagerando nos elogios. (Eu tendo a pensar que os antiwokes acertam mais.)
Mas uma coisa ninguém pode alegar que não é ridícula: Odisseu dizendo "a Idade do Bronze está acabando". Isso é um anacronismo pior que as armaduras medievais e as escolhas provocativas de elenco. É como colocar no final do filme "1917" um personagem dizendo "a Primeira Guerra Mundial tá foda, hein?"
Não dá pra defender. Não dá.
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