Aqui dentro do coração há uma cavidade onde ele reside, o Senhor do universo, o Governante do universo, o Diretor do universo; ele não é aperfeiçoado por boas ações, nem é diminuído por más ações. Ele é o Senhor do universo, o governante dos seres vivos, o protetor dos seres vivos; ele é a ponte que separa estes mundos e impede que eles se choquem.
– Brhadāranyaka Upaniṣad
"Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas afinal é preciso começar a amar, para não adoecer, e é inevitável adoecer, quando, devido à frustração, não se pode amar".
Freud, 1914 (Introdução ao narcisismo).
produzindo um gozo no gesto amoroso com cada uma das mulheres,
o incorpóreo aflora no esplendor dos lótus negros de sua pele,
pelas belas pastoras é abraçado desenfreadamente por todos os lados,
na primavera, amiga, ele joga com a graça do amor encarnado.
"dāmodara deleitado"
Aqueles que são devotos de deuses diferentes de Śiva, segundo Abhinavagupta, ou diferentes de Krishna, segundo a Bhagavad Gītā, e que consideram algo distinto da pura autoconsciência como objeto da oferenda ritual, acabam, em última análise, admitindo a própria autoconsciência como esse objeto. Assim, torna-se evidente que a inclinação final do aspirante é dirigida ao próprio Si-mesmo como objeto supremo de contemplação.
— Tantraloka
Os devotos da Deusa Suprema são geralmente chamados de Śāktas, isto é, "seguidores de Śakti", nome da Deusa que denota o "poder" ou a "energia" feminina do universo. Porém, os contornos da tradição Śākta estão bem menos definidos do que o Śaivismo ou o Vaiṣṇavismo. Com efeito, seria um equívoco afirmar que apenas os Śāktas cultuam a Deusa. De um modo ou de outro, praticamente todos os hindus a reverenciam. Isso é particularmente perceptível nas vilas e aldeias onde práticas rituais cotidianas incluem o cumprimento das demandas da Deusa e o recebimento das dádivas por ela concedidas. O Vaiṣṇavismo e o Śaivismo incorporaram a Deusa (e suas manifestações) como consorte ou energia (śakti) de suas divindades masculinas. Por outro lado, como já mencionado, as dimensões tântricas do Śaivismo estão permeadas por práticas e por imagens feminilizadas da divindade. Nos textos Śākta, a religião feminilizada impregna as manifestações do tipo tântrico e purāṇico. Originalmente situada à margem do mundo bramânico, a Deusa foi incorporada ao culto purāṇico ortopráxico. Por outro lado, no período medieval tardio, o culto tântrico à Deusa vinculado à tradição Śrī Vidyā passou por um processo de brahmanização. De forma geral, a ortopraxia hindu manteve a Deusa dentro de um enquadramento bramânico. Entretanto, entre as castas inferiores, tribos e nos interstícios tântricos entre castas superiores e inferiores, a Deusa manteve-se à margem da autoridade bramânica e preservou sua independência rebelde como símbolo da inversão dos valores bramânicos.
— Gavin Flood, An Introduction to Hinduism.