Sou professor de Sociologia e pesquisador das relações entre religião, discurso, política e educação. Interessa-me especialmente compreender o que acontece quando tradições religiosas precisam responder às transformações do mundo contemporâneo: autoridade, identidade, diferença, direitos humanos, democracia e esfera pública estão no centro dessas investigações.
Por aqui, compartilho pesquisas, textos e provocações.
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@RafaelScov84712 Kkkkk! Em certos círculos, discordar de Mises, Rothbard e do velho Hayek parece uma heresia mais grave do que contrariar o próprio Evangelho. A ortodoxia é reformada, mas o magistério é austríaco. 😂
É curioso como, para certos reformados brasileiros, a chamada "cosmovisão cristã" deve alcançar todas as esferas da vida — até esbarrar na economia.
Para os costumes, muita disciplina. Para o mercado, liberdade quase irrestrita.
Só há um pequeno inconveniente: na Genebra de Calvino, a atividade econômica não estava dispensada das exigências de justiça social.
Não se trata de transformar Calvino em socialista, evidentemente. Trata-se de perguntar por que alguns de seus herdeiros parecem tão dispostos a disciplinar a vida privada, mas tão pouco interessados em questionar o poder econômico.
Afinal, estamos interpretando Calvino à luz da tradição reformada ou reinterpretando a tradição reformada à luz das nossas preferências político-ideológicas?
Há algo particularmente revelador quando determinados discursos religiosos manifestam profunda desconfiança do poder estatal, mas tratam o poder econômico como expressão quase natural da liberdade.
Não se trata apenas de uma preferência econômica. O que merece atenção é o processo pelo qual uma concepção historicamente situada de mercado passa a ser apresentada como decorrência quase necessária da própria fé cristã.
A questão, portanto, não é simplesmente saber se determinada posição econômica é cristã, mas compreender como certas posições conseguem reivindicar para si a autoridade de definir o que significa ser cristão.
Talvez seja precisamente aí que a ideologia opere com maior eficácia: quando uma escolha política e econômica deixa de aparecer como escolha e passa a ser reconhecida como fidelidade à fé.
É precisamente essa contradição que me chama a atenção. Como se os mercados e a própria arena econômica fossem neutros, imunes aos interesses dos atores e às relações de poder. O Estado é visto como uma ameaça permanente à liberdade; o mercado, quase como sua garantia natural. Curioso como a desconfiança do poder desaparece justamente quando chegamos ao poder econômico.
Saiu nova pesquisa Quaest e Lula continua se aproximando de Flávio Bolsonaro: a diferença caiu de 46% x 44% para 45% x 44% dos votos totais. Faltam quatro dias para as eleições. A parada está sendo decidida pela enorme mobilização nas ruas e nas redes. A virada está próxima.
O gráfico expõe uma disputa fundamental: quem paga a conta da inflação?
Entre 2018 e 2022, o salário mínimo perdeu cerca de 26% do seu poder de compra em relação à cesta básica em São Paulo. Desde 2023, houve recuperação parcial.
A inflação tem múltiplas causas. Mas quem suporta seus custos, e em que medida, também depende de escolhas políticas.
Valorizar o salário mínimo não é apenas uma questão fiscal. É uma disputa pela distribuição da riqueza e pelas condições materiais de vida de quem trabalha.
Boa observação, Garcia! A associação entre meritocracia e a figura do “cidadão de bem” me parece bastante pertinente. Faria apenas uma ressalva: a ênfase quase exclusiva na soteriologia caracteriza determinados segmentos reformados, não todos. Em outros círculos, especialmente aqueles identificados com a chamada “cosmovisão cristã”, o movimento parece ser justamente o contrário: pretende-se alcançar todas as esferas da vida, mas de maneira bastante seletiva. E talvez esteja aí a questão mais interessante: por que determinadas convicções morais são apresentadas como exigências inegociáveis da fé, enquanto certas premissas econômicas parecem escapar ao mesmo escrutínio?
Há algo fascinante em certos setores do calvinismo brasileiro: tudo é ideologia, menos a própria teologia. As convicções políticas dos outros são históricas e ideológicas. As suas, curiosamente, seriam apenas expressões da “sã doutrina”. Mas há um pequeno problema: ninguém interpreta Calvino, a Bíblia ou uma confissão de fé fora da história. Talvez uma das operações mais interessantes do conservadorismo religioso seja justamente esta: transformar escolhas historicamente situadas em verdades aparentemente eternas. E aqui está o ponto que mais me interessa: não é preciso abandonar a tradição para instrumentalizá-la. Às vezes, basta reivindicar para si o monopólio de sua interpretação.
Há uma ironia desconcertante no calvinismo brasileiro: talvez o elemento mais revolucionário da teologia de Calvino seja justamente um dos mais negligenciados por certos setores reformados: as adiáforas.
Nem tudo é pecado. Nem tudo exige uma regra. Nem toda decisão precisa da autorização de um pastor.
Suspeito que o problema não seja apenas o medo do relativismo moral, mas algo bem mais profundo: o desconforto com a indecidibilidade. Afinal, o que fazer quando a igreja não pode decidir tudo pela consciência do fiel?
Eis o paradoxo: há quem defenda Calvino com unhas e dentes, mas não suporte as consequências da liberdade cristã que ele próprio defendeu.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de fidelidade a Calvino, mas o excesso de pretensão em falar por ele.
Há uma ideia no pensamento de Karl Barth que me parece especialmente provocadora. Em Der Römerbrief (A Carta aos Romanos), sobretudo na segunda edição (1922), Barth retoma de Kierkegaard a noção de uma diferença qualitativa infinita entre Deus e o ser humano. Em outras palavras, Deus não se confunde com aquilo que pensamos, dizemos ou ensinamos sobre ele. E daí vem uma consequência radical: a própria religião, inclusive o cristianismo, também está sob o juízo de Deus. Nenhuma igreja, doutrina, liderança religiosa ou confissão de fé está acima disso. Talvez esteja aí uma das maiores contribuições de Barth: mostrar que a própria fé pode e deve abrir espaço para a crítica da religião. Afinal, quando uma religião reivindica o direito de julgar o mundo em nome de Deus, mas se considera livre desse mesmo juízo, talvez já não esteja defendendo a soberania divina, mas simplesmente a sua própria autoridade.
Já que o principal assunto de hoje é política... vou mudar um pouco o tom e falar de teologia. rs O grande ganho crítico do barthianismo talvez esteja justamente na recusa de conferir a qualquer instância humana — seja a interpretação fundamentalista da Bíblia, o magistério eclesiástico ou a experiência profética individual — a prerrogativa de identificar sua própria palavra com a Palavra de Deus. Não porque Deus não possa falar, mas precisamente porque, se Deus fala, essa fala não está à disposição daqueles que reivindicam representá-lo. Entre o discurso humano e a revelação divina permanece uma diferença que nenhuma autoridade doutrinária, institucional ou carismática consegue eliminar por iniciativa própria.
Permita-me uma observação, Mateus. Posso estar enganado, mas me parecem duas questões distintas. Uma é a experiência de quem foi constrangido ou mesmo afastado de sua comunidade religiosa por razões político-ideológicas. Outra é a discussão sobre como enfrentar eleitoralmente o bolsonarismo. Afinal, ser de direita e não votar em Bolsonaro não implica necessariamente sofrer o mesmo constrangimento. Há uma assimetria que merece atenção: em determinados segmentos religiosos, a hegemonia político-ideológica tem sido da ultradireita, não da esquerda. Por isso, considero problemática a ideia de uma suposta simetria da polarização.
Parece-me que a estratégia dos dois discursos tem funcionado bem. Para a própria bolha e para os eleitores em potencial, promessas e mais promessas de prosperidade. Para os agentes do mercado, promessas e mais promessas de cortes de gastos. O problema é que cortes de gastos não são, por definição, uma política de prosperidade. Dependendo de onde incidem, podem comprometer investimentos, serviços públicos, emprego e renda. A questão, portanto, não é simplesmente saber se as contas fecham, mas qual projeto de desenvolvimento está sendo anunciado e quais interesses ele pretende atender. Afinal, promete-se prosperidade para quem e austeridade às custas de quem?
Cortar gastos desacelera a economia e o autônomo é um dos primeiros a sentir. O Made mediu impactos diretos da desaceleração econômica em diferentes tipos de trabalhadores: MEI, autônomos, trabalhadores do setor privado (formais e informais), servidores públicos e empregadores.