Este artigo é para quem tem entre quinze e trinta anos. Os outros também podem ler — mas no fim têm um trabalho de casa.
Começa com uma coisa rara: um pedido de desculpas da minha geração, por escrito. Demos-vos um telemóvel aos dez anos e deixámos que um algoritmo vos criasse. Fechámos-vos a escola dois anos para proteger os mais velhos — e chamámos-vos "resilientes" para mudar de assunto. Deixámos a habitação subir 124% e depois estranhámos que saiam de casa aos 29. São a geração mais qualificada da história de Portugal; 850 mil de vocês já vivem lá fora.
Mas o artigo não é sobre isso. É sobre a parte que ninguém vos diz:
— Não é a IA que vos rouba o primeiro emprego. Investigação da LSE, de Oxford e da Fed de Nova Iorque mostra que o efeito quase desaparece quando se controla pelo trabalho remoto. Não é o algoritmo — é o sofá de quem já teve o emprego que vocês procuram.
— Com o Suno, têm um estúdio de gravação e uma banda. Com o Claude, uma equipa inteira para montar uma empresa. Com cinquenta euros por mês, o que em 2015 exigia meio milhão. A porta que esteve trancada durante toda a história está escancarada.
— O conhecimento que protegia as profissões — o jargão dos advogados, a gíria dos financeiros — traduz-se agora de graça. Essas muralhas não vos protegiam a vocês: protegiam-nos de vocês. Caíram.
— E a demografia que vos bloqueou vai virar o feitiço: quem é escasso, vale mais. Pela primeira vez em décadas, ser novo volta a ser vantagem.
Falta só a peça que ninguém vos pode dar: aparecer. Votar — a gerontocracia vive da vossa abstenção. Entrar nos partidos — estão vazios; os boys contam com a vossa ausência. Criar, debater, incomodar.
Sobra tudo para vocês. Ainda bem.
(E o trabalho de casa dos pais e avós: reencaminhar isto a quem tem entre quinze e trinta anos. É o mínimo — devem-lhes muito mais do que este forward.)