É inegável — e merece ser dito sem rodeios — que os jogadores brasileiros tiveram um papel imenso no desenvolvimento do futebol japonês. De Nelson Yoshimura nos anos 60 e 70 a Zico, Leonardo, Dunga, Jorginho e tantos outros, o Brasil exportou não apenas talento, mas uma cultura de jogo que elevou o nível técnico do Japão. Isso é fato, e o futebol japonês tem com o Brasil uma dívida de gratidão genuína.
Mas é justamente por respeito aos fatos que a tese central do texto precisa ser corrigida. Nunca existiu, por parte da federação japonesa, um projeto de naturalizar jogadores para montar a seleção — e em nenhum momento se cogitou seriamente que o Japão teria um time de "importados". Os naturalizados foram um subproduto natural da presença brasileira no futebol japonês, não o objetivo dela.
Basta olhar as trajetórias:
Ruy Ramos (1977) e Wagner Lopes (1987) chegaram ao Japão quando sequer existia uma liga profissional. Vieram como jogadores para clubes da então amadora JSL, não como peças de um plano de seleção. A naturalização de Ramos, aliás, foi motivada pela cota de estrangeiros do próprio clube (o Yomiuri), e não por um chamado da seleção.
Alex (Alessandro Santos) e Marcus Túlio Tanaka são ainda mais reveladores: ambos vieram ainda adolescentes para reforçar times de futebol de ensino médio. Alex foi recrutado aos 16 anos, em 1994, para o colégio Meitoku Gijuku — um time que nunca passou nem da fase estadual. Túlio veio para o colégio Shibuya Makuhari. Eles simplesmente se estabeleceram no país, construíram carreira e, anos mais tarde, se naturalizaram. Nada disso tem qualquer ligação com um suposto "projeto de seleção importada".
Em resumo: o Brasil enriqueceu profundamente o futebol japonês, e isso merece respeito mútuo. Mas transformar um punhado de naturalizações individuais — fruto da longa permanência desses jogadores no país — em um plano de "seleção importada" é uma narrativa que os fatos não sustentam. O número de naturalizados na seleção sempre foi mínimo, e o Japão jamais esteve perto de ter um time de estrangeiros. O verdadeiro projeto japonês foi outro: profissionalizar a liga, atrair craques e, acima de tudo, formar talento próprio
O Japão quase criou uma seleção "importada" nos anos 90
Nos anos 1990, o Japão colocou em prática um projeto ambicioso que mudou a história do futebol do país. Depois de décadas vivendo na sombra de potências, o país decidiu acelerar seu desenvolvimento com investimentos pesados, da profissionalização da liga nacional e da ida de craques de outras nacionalidades para lá. Especialmente brasileiros.
O Brasil acabou sendo escolhido como referência não apenas pela reputação no esporte, mas também pela ligação entre os dois países por meio da migração. O Brasil abriga a maior comunidade de origem japonesa fora do Japão.
Contratado pelo Kashima Antlers em 1993, Zico é lembrado e homenageado até hoje pelo quanto sua presença ajudou a popularizar e elevar o nível técnico do futebol japonês.
Mas o projeto não parou por aí. A federação japonesa também passou a olhar com atenção para atletas estrangeiros que viviam no país e que poderiam obter a cidadania japonesa para defender a seleção nacional.
O pioneiro desse movimento foi Ruy Ramos. Nascido no Rio de Janeiro e sem ter feito uma carreira de destaque no Brasil, ele chegou ao Japão em 1977, onde abandonou a zaga, se reinventou como atacante e se tornou um dos principais jogadores do país. Doze anos depois, ele se naturalizou japonês, passou a defender a seleção e se tornou um dos símbolos da equipe.
Ruy abriu o caminho para que a presença de estrangeiros fosse normalizada. Outro exemplo foi Wagner Lopes, que se tornou cidadão japonês em 1997 e participou da campanha que classificou o Japão para seu primeiro Mundial, em 1998.
Naquele momento, a presença de naturalizados era vista como uma forma de acelerar o crescimento da seleção.
Apesar da fama dos brasileiros, o projeto não era restrito a eles. O Japão abriu espaço para atletas de outras origens que construíram suas vidas no país. Só que o Brasil acabou tendo mais destaque pelo seu papel no fortalecimento da recém-criada J-League.
Esse cenário fez com que se acreditasse que o Japão estivesse no caminho para montar uma seleção composta apenas por jogadores “importados”. Mas essa possibilidade nunca chegou a se concretizar.
Isso porque, na virada do milênio, o projeto de desenvolver talentos locais por meio do aumento do nível competitivo da liga japonesa deu certo.
O fortalecimento das categorias de base tornou possível o surgimento de nomes como Hidetoshi Nakata, Shunsuke Nakamura, Keisuke Honda e Shinji Kagawa, mostrando que o país já era capaz de formar jogadores de alto nível sem depender de reforços vindos de fora.
Hoje, o Japão é presença constante nos Mundiais, maior campeão da Copa da Ásia e a seleção asiática mais bem colocada no Ranking da Fifa. Ainda que as naturalizações não tenham se tornado um projeto de larga escala, elas ajudaram a pavimentar o caminho para que a seleção japonesa se tornasse o que é hoje.
#Japao #Mundial #KashimaAntlers #Zico