Fico pensando se, no cenário atual, ainda faz sentido haver mestrado acadêmico. Não seria melhor que o mestrado tivesse foco profissional, e que quem tem interesse acadêmico fosse direto para o doutorado, com 5 anos de duração, bolsa e dedicação exclusiva?
@RodrigoF10SB Não é. Você tem uma visão infantil que supõe que basta dar mais uma atribuição para os cientistas, que já não tempo para nada e muito sequer treinamento para, e pronto. Inacreditável que alguém imagine que isso resolve alguma coisa.
É indiscutível que existem pacientes que melhoraram depois de receber polilaminina. Indiscutível.
O que deve ser discutido é a atribuição dessa melhora à droga em si. Melhorar depois do tratamento não significa que melhorou por causa dele.
O problema é que essa discussão está sendo SILENCIADA, e isso me preocupa muito.
Em parte, esse silenciamento ocorre por causa dos posts virais sensacionalistas, que páginas de engagement-farming e influencers estão reproduzindo.
Postagens que endeusam a Tatiana Sampaio, dizendo que a pesquisadora "fez tetraplégicos voltarem a andar", estão moldando a opinião pública de uma maneira completamente bizarra.
Muitos já estão em uma fase tão avançada do que parece uma lavagem cerebral que, ao se deparar com qualquer questionamento às alegações prematuras (e não comprovadas) de benefícios da polilaminina, entendem que se trata de um "ATAQUE" à divindade Tatiana Sampaio — e partem para ofensas, insinuações e até mesmo ameaças.
Fato é que não há (ainda) qualquer comprovação empírica de que isso seja verdade. Não há nenhum estudo ou observação concreta da realidade que nos convença de forma razoável que isso seja verdade.
[Vou tentar explicar isso aqui. Já aviso que talvez vc precise dedicar alguns minutos da sua vida para ler e entender. Mas acho que vai ser proveitoso.]
"Pq não podemos dizer que polilaminina funciona?"
Será possível dizer que "pessoas estão voltando a andar graças à polilaminina" apenas se tivermos certeza que elas NÃO teriam melhorado da forma que melhoraram caso não tivessem recebido a droga.
"Mas o que poderia explicar esse retorno de capacidade funcional e redução do comprometimento funcional, que não um efeito da polilaminina?"
Muitas pessoas não sabem disso, mas uma lesão medular não é uma sentença. As pessoas não necessariamente ficam "totalmente paralisadas", e as pessoas podem melhorar com o tempo. Vou explicar:
Quem sofre uma lesão de medula espinhal é avaliado de acordo com a escala ASIA (American Spinal Injury Association Impairment Scale) para determinar os níveis sensoriais e motores afetados.
A escala possui cinco níveis de classificação, que vai desde uma perda completa da função neural na área afetada (ASIA A), sem qualquer função motora ou sensória abaixo do nível da lesão; até até normalidade completa (ASIA E), onde todas as funções do paciente estão OK, sem prejuízo.
Isso já ajuda a desmistificar o pensamento "tudo ou nada" do senso comum sobre lesão medular. Na realidade, existem 5 graus de comprometimento: os piores casos são ASIA A, e os menos piores ASIA C/D.
Mas o mais importante aqui é entender que as pessoas que sofrem lesão medular podem, sim, melhorar o seu grau de comprometimento inicial.
(Sim, até mesmo pessoas com "lesão completa", que são as que estão recebendo polilaminina. Mesmo nesses casos, não é raro ver progressão.)
Primeiro: existe uma taxa de conversão não-trivial de pacientes com 'lesão completa' (ASIA A) para lesão incompleta (ASIA B, C ou D) mesmo sem receber tratamento algum. Dados da literatura mostram que isso ocorre com até 15% dos pacientes.
[Lembrando: "taxa de conversão" é a proporção de pessoas que inicialmente estão em uma categoria de gravidade (p. ex., ASIA A) e, com o passar do tempo, passam para outra categoria (p. ex., ASIA B).]
Mas há uma taxa de conversão maior ainda na presença do tratamento usual padrão ouro: imobilização e primeiros socorros imediatos, minimizar lesões secundárias (com otimização hemodinâmica e cirurgia de descompressão precoce) e fisioterapia intensiva precoce. Dados da literatura mostram que, nesse cenário "ótimo", a conversão de ASIA A para ASIA C/D pode acontecer com até 40% dos pacientes.
Se não houvesse QUALQUER conversão...
Se os pacientes inicialmente classificados como "ASIA A" definitivamente NÃO recuperassem qualquer capacidade motora ou sensória...
Não precisaríamos de estudo algum.
Bastaria aplicar polilaminina em alguns pacientes e ver o que acontece. Caso melhorem, as únicas explicações seriam: 1) um milagre sobrenatural, ou 2) a polilaminina conseguiu reestabelecer as conexões sinápticas perdidas, causando ganho de função que caso contrário com certeza não teria sido possível e viabilizando uma conversão sem precedentes de "ASIA A" para "ASIA B/C/D", que seria impossível acontecer na ausência de um tratamento eficaz.
Mas isso simplesmente não é verdade, como agora você sabe. As pessoas recuperam função sim, mesmo os casos de lesão completa (ASIA A).
Existe um problema adicional, no entanto...
Pacientes inicialmente classificados com lesão completa (ASIA A) são, na realidade, frequentemente pacientes com lesão incompleta (ASIA B/C/D).
Em outras palavras: muitas pessoas recebem um "diagnóstico" errado. Paciente chega no hospital, o profissional encarregado de conduzir os testes da escala ASIA faz os procedimentos necessários e chega na conclusão de que é ASIA A, quando na realidade não é.
[Por sinal, nada disso é especulação minha, está tudo bem documentado na literatura. Existe um grande overdiagnosis de 'lesão completa', que pode chegar a 20-40% dos casos. Isto é, até 40% dos pacientes com 'ASIA A' são re-classificados como 'ASIA B, C ou D' quando o exame é repetido posteriormente!]
Esse "erro" não é incompetência. Esse erro de classificação ocorre devido a dificuldades no exame físico nas primeiras horas/dias desde o evento traumático que originou a lesão medular.
1. Choque espinhal: uma fase transitória de arreflexia (ausência completa de reflexos musculares), que pode levar dias e até semanas para resolver. De maneira geral, muitas 'lesões incompletas' podem parecer 'lesões completas', pois os reflexos e sensações sutis estão temporariamente prejudicadas.
Cabe destaque aqui à ausência de reflexo bulbocavernoso, que é sugestivo de lesão completa. Mas se a ausência deste reflexo é por causa do choque espinhal (e não por causa da lesão em si), estamos classificando o paciente com ASIA A (lesão completa) incorretamente. Nesse caso, uma melhoria posterior é completamente esperada, e pode perfeitamente não ter sido causada pela polilaminina, mas sim pela resolução do choque espinhal.
2. Edema: esse é mais intuitivo, qualquer lesão gera inflamação e edema. Nas primeiras horas/dias, é muito difícil descartar a possibilidade de que o edema e prejuízos temporários em neurotransmissores estejam mascarando uma função neurológica que, no fundo, está preservada. Esse é mais um fator que enviesa a avaliação inicial na escala ASIA, fazendo com que o operador "erre pra cima", e diga (incorretamente) que pacientes com 'lesão incompleta' têm 'lesão completa'.
É por isso que as diretrizes da área sugerem cautela na determinação do diagnóstico/prognóstico do paciente com lesão medular dentro dos primeiros 7-10 dias. Qualquer avaliação de grau de comprometimento é muito incerta. Muitas vezes é prudente deferir uma classificação definitiva antes da resolução completa do choque espinhal, registrando "grau de comprometimento indeterminado" ou, ao menos, registrar 'ASIA A' como uma "lesão presumivelmente completa". Infelizmente, entretanto, muitos pacientes são rotulados com 'ASIA A' sem essas nuances.
Ou seja: quem diz para um paciente com lesão medular que acabou de chegar no hospital que ele "nunca mais vai voltar a andar" tem grande chance de estar contando uma inverdade, dando uma notícia ruim desnecessariamente.
Mas não dá pra dizer que esse erro não é conveniente.
Muitos médicos podem preferir classificar a lesão como mais grave do que ela realmente pode ser por uma questão de cautela, porque preferem não criar muita expectativa no paciente.
Em contrapartida, se o médico diz que o paciente "nunca mais vai andar" e o paciente volta a mexer um pé semanas depois, isso é frequentemente visto como algo positivo, podendo ser interpretado até mesmo como um "milagre" médico (mesmo que, na verdade, tenha sido apenas uma correção do diagnóstico inicial de comprometimento que foi superestimado).
"Ok, entendi tudo... mas ainda não enxerguei como exatamente isso é relevante para saber se polilaminina funciona"
Na prática, isso tudo importa porque polilaminina é aplicada justamente dentro das primeiras 72 horas desde o evento que originou a lesão medular. Muitos pacientes, como o Bruno Drummond, receberam a polilaminina em menos de 24 horas.
Isso significa que aplicação da polilaminina é feita no momento em que a situação do paciente é extremamente incerta: não temos certeza se é lesão completa mesmo, não sabemos qual é o verdadeiro grau de comprometimento funcional.
Então o paciente pode melhorar em poucos dias/semanas depois de receber polilaminina, com uma progressão excelente, que você não esperaria para uma 'lesão completa' — mas que, no fundo, é uma recuperação que já ocorreria de qualquer forma devido à resolução dos desarranjos neurológicos temporários (p. ex., choque espinhal/edema) e, claro, o tratamento padrão ouro que foi aplicado de forma rápida e com alta qualidade, em um centro especializado, como foi o caso de Bruno Drummond.
Em suma:
Para saber se polilaminina funciona mesmo, precisamos garantir que a melhoria que estamos observando nos pacientes definitivamente NÃO FOI causada por (1) melhorias reais devido ao tratamento usual padrão ouro ou (2) correção do erro de classificação inicial.
E a única forma de garantir isso é com estudos científicos experimentais em humanos.
Especificamente, precisamos que esse estudo seja um 'ensaio clínico controlado aleatorizado'.
Devem ser recrutados indivíduos com lesão medular aguda nas últimas 72h, inicialmente classificados como lesão completa ('ASIA A'). Conforme os protocolos iniciais do grupo de pesquisa da Tatiana, a localização da lesão deve ser entre C4 e T12, e os pacientes todos têm que ter indicação de cirurgia de descompressão medular e/ou fixação da coluna vertebral — pois a aplicação da polilaminina é feita durante essa cirurgia.
Metade dos pacientes recrutados serão sorteados para cair no grupo intervenção (polilaminina) e a outra metade para o grupo controle (que pode receber placebo, por exemplo). Ambos grupos devem ser tratados de forma idêntica e acompanhados ao longo dos meses/anos.
Se houver maior e/ou mais rápida recuperação funcional no grupo intervenção, então saberemos que polilaminina é eficaz (e poderemos inclusive estimar qual é o tamanho de sua eficácia).
Em contrapartida, se não houver diferença importante na recuperação funcional entre os dois grupos, saberemos que o tratamento—infelizmente—não é eficaz.
"Ok, mas os pesquisadores certamente já sabem disso e vão fazer as pesquisas, certo?"
Teoricamente, sim. Normalmente é isso mesmo que acontece.
Mas normalmente, para 99% dos tratamentos, a percepção pública é NEUTRA.
Os pacientes normalmente não têm motivos para acreditar que o tratamento funciona. Ele confia no cientista que diz que há uma genuína incerteza em relação à eficácia e segurança do tratamento, e por isso estão conduzindo um ensaio clínico randomizado.
Por isso, os pacientes normalmente tendem a topar participar do estudo e aceitam ter 50% de chance de serem sorteados para receber tratamento ou placebo.
No entanto, a propaganda massiva, exagerada e enganosa que está sendo feita nas redes sociais está fazendo com que muitas pessoas acreditem que o tratamento com certeza funciona — ou que, ao menos, a probabilidade de funcionar é enorme.
Essa percepção é um problemão, pq muitos pacientes podem NÃO QUERER participar dos ensaios clínicos. Afinal, em um estudo há apenas 50% de chance de receber polilaminina. Se a chance de receber o tratamento por via judicial (ou outras vias) é maior, isso significa que muitos pacientes vão evitar os ensaios clínicos.
E o que acontece quando os pacientes evitam ensaios clínicos?
1. Os estudos demoram mais para chegar no número necessário de participantes
2. Os estudos demoram mais para serem finalizados
3. O medicamento demora mais tempo para ter o seu perfil de segurança e eficácia definido
4. O medicamento demora mais tempo para ser aprovado pela ANVISA (caso seja eficaz e seguro)
5. O medicamento demora mais tempo para chegar no mercado e no SUS, o que significa que milhares de pessoas com lesão medular aguda que poderiam ter sido beneficiadas perderão a janela de oportunidade para receber um tratamento que poderia mudar o rumo de suas vidas. "Só" isso.
Isso é o que está em jogo por causa de pessoas e instituições irresponsáveis (ou com segundas intenções) que decidiram fazer uma grande campanha de marketing divulgando informações enganosas, induzindo a opinião pública ao erro.
Eu espero MUITO, de coração, que os ensaios clínicos randomizados sejam feitos.
Que sejam bem feitos, que o grupo de pesquisa receba verba, receba apoio financeiro e apoio intelectual para conduzir esses trabalhos.
Que esses estudos não sejam atrasados por dificuldades no recrutamento
E que a desinformação que estamos vendo não acabe prejudicando a vida de pessoas que poderiam se beneficiar da polilaminina, caso o medicamento se demonstre eficaz mesmo — que é o que todos nós queremos que seja verdade.
Obrigado pela leitura.
Curioso que a notas e comentários se preocupam (corretamente) com falsa atribuição de causa e efeito para desfechos ruins.
Mas todo mundo gostou de atribuir falsa causa e efeito pros desfechos positivos.
Falsa não quer dizer que não pode funcionar mas sim que não foi provado.
Our immune system is an evolutionary masterpiece. Every day it protects us from the thousands of different viruses, bacteria and other microbes that attempt to invade our bodies. Without a functioning immune system, we would not survive.
One of the immune system’s marvels is its ability to identify pathogens and differentiate them from the body’s own cells. The microbes that threaten our health do not wear a uniform – they all have different appearances. Many have also developed similarities to human cells, as a form of camouflage. So how does the immune system keep track of what to attack and what to protect? Why doesn’t the immune system attack our bodies more frequently?
Researchers long believed they knew the answer to these questions: that immune cells mature through a process called central immune tolerance (see image). However, our immune system turned out to be more complex than they believed. Mary Brunkow, Fred Ramsdell and Shimon Sakaguchi have been awarded the 2025 Nobel Prize in Physiology or Medicine for their discoveries concerning peripheral immune tolerance.
Sugestão de como comunicar dados ao paciente objetivando decisões compartilhadas.
Referência: How to Communicate Medical Numbers. JAMA. September 24, 2025. doi:10.1001/jama.2025.13655
Como e quanto a publicidade de bebidas alcoólicas impacta no seu consumo? Que estratégias são utilizadas para fugir das restrições à publicidade?
Este episódio é um oferecimento da ACT Promoção da Saúde (https://t.co/rlVPKyPuxD)
https://t.co/k9DR9KblD4
Precisamos (re-)aprender a discordar sem insultar daquele que discordamos, principalmente virtualmente, e ainda mais nesse site.
Muitas vezes, eu vejo pessoas dizendo coisas que quase certamente não diriam se estivessem cara a cara com a outra pessoa.
We don't want to return to the health of the past.
In the 1960s, we were leaner but it was common to drop dead from a heart attack in middle age.
We have new challenges and we should meet them with new solutions.
After 21 years at my dream job, I’m very sad to announce my early retirement from the National Institutes of Health. My life’s work has been to scientifically study how our food environment affects what we eat, and how what we eat affects our physiology. Lately, I’ve focused on unravelling the reasons why diets high in ultra-processed food are linked to epidemic proportions of chronic diseases such as diabetes and obesity. Our research leads the world on this topic.
Given recent bipartisan goals to prevent diet-related chronic diseases, and new agency leadership professing to prioritize scientific investigation of ultra-processed foods, I had hoped to expand our research program with ambitious plans to more rapidly and efficiently determine how our food is likely making Americans chronically sick.
Unfortunately, recent events have made me question whether NIH continues to be a place where I can freely conduct unbiased science. Specifically, I experienced censorship in the reporting of our research because of agency concerns that it did not appear to fully support preconceived narratives of my agency’s leadership about ultra-processed food addiction.
I was hoping this was an aberration. So, weeks ago I wrote to my agency’s leadership expressing my concerns and requested time to discuss these issues, but I never received a response. Without any reassurance there wouldn’t be continued censorship or meddling in our research, I felt compelled to accept early retirement to preserve health insurance for my family. (Resigning later in protest of any future meddling or censorship would result in losing that benefit.) Due to very tight deadlines to make this decision, I don’t yet have plans for my future career.
The NIH has been a wonderful place because it allows scientists to take risks, form unique collaborations, and do studies difficult to conduct elsewhere. I’m proud of what we’ve accomplished and I’m fortunate to have had such wonderful colleagues and scientific collaborators. I hope to someday return to government service and lead a research program that will continue to provide gold-standard science to make Americans healthy.
Coisas que eu gostaria de ter ouvido durante o meu mestrado/doutorado:
1. A pós-graduação vai te deixar mais ansioso e mais sabido, em média. Aprenda a lidar com isso. Se não conseguir, busque ajuda profissional;
2. A pós-graduação é um investimento de longo prazo. Vc vai ver a galera da sua coorte - no sentido demográfico do termo - avançando em empregos e conquistas profissionais enquanto vc parece que não sai do canto. Por isso, tenha calma para enfrentar os períodos de dureza (miojo, ônibus lotado e steak de resto de frango, incluindo bicos e penas, vão te fazer mais resiliente);
3. Não fique se comparando, nem com seus colegas de pós-graduação nem com a galera de fora. Faz o teu. Estude os conteúdos das disciplinas. Seja participativo. Apareça nas aulas. Faça cursos para complementar a formação. Invista em inglês, estatística e programação.
4. Quando tudo parecer perdido e vc pensar em desistir, desista de desistir e persista.
Acho que é isso. Se eu lembrar de mais alguma coisa eu compartilho por aqui.
O público não gosta de ciência, gosta do entretenimento da "ciência divertida" ou dos produtos que ela traz. Mas quando a ciência contraria suas crenças, rejeitam imediatamente. Gostar de ciência é gostar de mudar de ideia e a maioria só quer a "ciência" que reafirma crenças.