Uma reportagem da Bloomberg publicada em 22 de julho revelou que a família Batista, controladora da J&F, adquiriu, nos últimos meses, a empresa A&B Oil and Gas e passou a deter 49% da Petrolera Roraima, uma joint venture com a estatal venezuelana PDVSA, que mantém os outros 51%.
Não se trata da compra de uma fatia da PDVSA, mas da entrada dos irmãos Batista em um dos ativos mais estratégicos da Faixa Petrolífera do Orinoco, região que abriga uma das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.
Hoje, o campo produz cerca de 30 mil barris de petróleo por dia. A meta da J&F é transformar o projeto em um dos maiores da região, elevando a produção para 120 mil barris diários nos próximos cinco anos - quatro vezes o volume atual.
O ativo também carrega um histórico controverso; ele integra o antigo projeto Petrozuata, da americana ConocoPhillips, expropriado pelo governo Hugo Chávez. Anos depois, um tribunal internacional condenou a Venezuela a pagar cerca de US$ 8,7 bilhões à empresa pela expropriação.
A operação ocorre justamente após os EUA flexibilizarem parte das sanções ao setor petrolífero venezuelano, permitindo a retomada de determinados investimentos.
Em janeiro deste ano, a Reuters revelou que Joesley Batista participou de reuniões com autoridades do governo venezuelano e também esteve em Washington discutindo oportunidades no setor de energia, atuando como interlocutor entre Caracas e autoridades americanas.
Mas há outro ponto que chama atenção: em 2024, o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, revelou que o Itamaraty impôs sigilo de cinco anos aos telegramas diplomáticos sobre operações da J&F na área de energia na Venezuela - até hoje, esses documentos permanecem inacessíveis.
O governo Lula também não divulgou o conteúdo dessas comunicações, o grau de envolvimento diplomático nas negociações nem eventuais avaliações sobre os riscos políticos, jurídicos e geopolíticos desses investimentos.
Agora, com a confirmação da entrada da J&F em um projeto petrolífero operado em parceria com a PDVSA, o sigilo imposto pelo Itamaraty ganha ainda mais relevância. Quais informações o governo Lula decidiu manter longe do conhecimento da sociedade?