QUANDO A CORTE DESCE AO NÍVEL DO CAMPO
A comparação feita pelo ministro Gilmar Mendes, em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, não é apenas infeliz, é reveladora!
Dizer que a Justiça brasileira se tornou objeto de palpites, como o futebol, não é uma crítica ao povo. É uma confissão sobre o estado da Suprema Corte.
O futebol é popular porque está nas ruas, nas praças, nos improvisos de qualquer terreno de terra batida. Nele, todos opinam porque todos compreendem suas regras e, sobretudo, porque o jogo é transparente, o erro é visível e o acerto é incontestável.
Quando a mais alta Corte do País passa a ser tratada da mesma forma, não é o povo que se eleva à condição de juiz, é a Corte que se rebaixa à condição de espetáculo.
O respeito institucional não se impõe por autoridade, constrói-se por conduta. Não nasce do cargo, mas da sobriedade, da previsibilidade e da coerência de quem o ocupa.
Quando decisões parecem erráticas, quando manifestações soam mais políticas do que jurídicas, quando o protagonismo substitui a discrição, o resultado é inevitável: a toga perde altura.
E quando a toga perde altura, o cidadão já não precisa erguer os olhos para enxergar seus julgadores, basta olhar ao redor.
O problema, portanto, não está na crítica popular. Está na erosão da autoridade moral que deveria torná-la desnecessária.
Instituições sólidas não temem o julgamento da opinião pública; elas o superam pela confiança que inspiram.
Se hoje há palpites, não é porque o povo invadiu um território que não lhe pertence. É porque esse território deixou de ser percebido como um espaço de excelência e passou a se assemelhar a um campo onde, aos olhos de muitos, as regras já não são tão claras, nem os árbitros tão imparciais.
E NESSE JOGO, DIFERENTE DO FUTEBOL, O QUE ESTÁ EM DISPUTA NÃO É UM PLACAR. É A CREDIBILIDADE DA PRÓPRIA JUSTIÇA.