Em termos acumulados, entre 2020 e 2025 o valor das rendas dos novos contratos de arrendamento aumentou 60% e o das vendas (e prestações do crédito à habitação) aumentou 74%, o que compara com um aumento nominal dos salários de apenas 29%. É chupar até aos ossos de quem trabalha
É impressionante ver um primeiro-ministro falar de economia com esta clareza, num tema tão sensível como o custo de vida. “You cannot ask for high income and low prices.” Não podemos exigir rendimentos elevados e, ao mesmo tempo, preços artificialmente baixos, ignorando as forças económicas que os determinam. E quando acrescenta que é preciso reconhecer os preços como sinais legítimos de mercado, toca num ponto que parece ter desaparecido do discurso político europeu.
Em Portugal, Espanha e boa parte da Europa, a habitação é o exemplo mais evidente. Perante preços elevados, multiplicam-se os discursos contra a especulação, os controlos de rendas, os subsídios à procura e os impostos sobre quem disponibiliza casas no mercado. Pouco se fala dos obstáculos à construção, da burocracia, das restrições urbanísticas e de tudo o que impede a oferta de acompanhar a procura. Depois, perante os resultados, promete-se mais intervenção para corrigir os problemas criados pela intervenção anterior.
Os preços não são uma injustiça por definição. São sinais que importa compreender, mesmo quando transmitem más notícias. Se a procura cresce mais depressa do que a oferta, impedir os preços de reflectirem esse desequilíbrio não faz desaparecer a escassez. Muitas vezes, apenas a agrava.
O que falta na Europa não são políticos capazes de prometer soluções. São políticos com coragem e conhecimento económico para explicar os custos das escolhas que fazem, em vez de alimentarem o populismo de soluções fáceis para problemas difíceis.
JUST IN: 🇪🇺 ECB President Lagarde says they have "tools" to counter "unwarranted" market dynamics.
Right as bond yields hit their highest level since 2009.
They have no option but to print more money!
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Strategy preferred stock is now onchain!
People around the world who have no access to our markets can now enjoy bitcoin-stabilized, high-yield products!
☢️ Reflexão da Cooperativa: María del Carmen Abascal Martín, Maricarmen para os amigos. Já todos sabemos quem é. Uma velha carcaça. Doravante, vamos chamar-lhe só velha, ou cota, já vemos.
Eu olho para esta caso da velha e acho que o despejo é a parte menos preocupante disto tudo.
É. A velha já soprou 87 velas. Não teve filhos, não adotou e chega ao fim da vida sem descendentes diretos. Aos 87 anos, o corpo já negoceia connosco coisas que aos 40 dávamos por garantidas e a cota está essencialmente sozinha e abandonada ao seu próprio destino.
⚠️E para mim é esta a história que a Espanha devia estar a discutir.
Nos últimos dias milhares de pessoas preocupadas com a velha. Políticos e deputados indignados, jornalistas a gastarem a tinta toda da caneta, manifestantes ali, nas ruas, solidários com a velha. Agora é uma avó nacional de todos os espanhóis.
A velha é útil, mas ninguém quer saber dela.
Serve para colocar num cartaz. A vítima perfeita para uma discussão inquinada sobre habitação, fundos imobiliários, capitalismo, senhorios e rendas. Cada um podia pegar num pedaço da velha e levá-lo para casa para confirmar aquilo em que já acreditava. De repente já nem é bem um cota de 87, é um argumento.
⚠️Somos extraordinariamente bons a preocupar-nos com pessoas quando elas se transformam em causas e cada vez menos competentes a preocupar-nos com pessoas simplesmente porque são pessoas.
É por isso que a pergunta que esta história me provoca não é apenas onde vai viver a velha. É quem vai estar com a velja quando tiver 90 anos. Quem lhe vai telefonar ao domingo à noite quando já não houver jornalistas à porta. Quem lhe vai perceber pela voz que alguma coisa não está bem. Quem vai reparar que não abriu as persianas. Quem vai insistir para que vá ao médico. Quem vai ouvir pela décima vez uma história que já conhece. Quem vai simplesmente entrar em casa e perguntar se quer companhia. Ninguém. Quando derem pela falta da velha, é porque o cheiro já não se aguenta.
Nas últimas décadas fizemos uma transformação social gigantesca e achamos que era apenas isto do progresso. Libertámos o indivíduo de uma quantidade enorme de obrigações antigas e, em muitos casos, fizemos muito bem. Tornámo-nos mais livres para escolher onde viver, com quem viver, se queremos casar, se queremos ter filhos, se queremos sair da terra onde nascemos, se queremos dedicar a vida a uma carreira, viajar ou simplesmente não prestar contas a ninguém. Há uma extraordinária conquista humana nessa liberdade, é um facto, mas talvez tenhamos confundido liberdade com ausência de dependência.
Não são a mesma coisa.
O ser humano pode passar metade da vida a conquistar independência e a segunda metade a descobrir que nunca deixou verdadeiramente de precisar dos outros. Adiou o momento em que isso se torna evidente.
⚠️Aos 30 anos é fácil imaginar que não devemos nada a ninguém. Aos 40 ainda é bastante confortável. Aos 50 começamos a enterrar os pais. Aos 60 começam a desaparecer amigos. Aos 70 o mundo que conhecíamos começa lentamente a ficar mais pequeno. E aos 87 já não há filosofia individualista que consiga mudar uma lâmpada quando não conseguimos subir a um escadote.
Há uma parte profundamente incómoda nisto porque obriga a recuperar uma palavra que a modernidade quase transformou numa obscenidade moral. Responsabilidade. Não responsabilidade coletiva, essa é facílima. Responsabilidade pessoal.
A velha também fez as suas escolhas. Eu fiz as minhas. Tu fizeste as tuas. Continuamos todos a fazê-las.
Isso não significa que uma pessoa sem filhos mereça a solidão. Eu sei que há pais abandonados pelos próprios filhos e há pessoas que nunca tiveram descendentes e chegam aos 90 rodeadas de amigos, sobrinhos, afilhados e gente que construíram pelo caminho. Uma criança também não deve nascer com a missão de se transformar no enfermeiro dos pais 50 anos depois.
Mas também seria infantil fingirmos que as escolhas que fazemos sobre família, vínculos e comunidade não têm consequências.
Têm.
➡️➡️Ter filhos é uma dessas escolhas. Não os ter também. Casar é uma escolha. Não casar também. Dedicar vinte anos a construir uma família tem custos. Dedicar esses vinte anos exclusivamente a nós próprios também terá os seus. Algumas consequências são maravilhosas. Outras descobrimo-las demasiado tarde.
A liberdade sem consequência não é liberdade. É fantasia.
Talvez seja precisamente aqui que esteja uma das grandes contradições das sociedades ocidentais. Construímos uma cultura que glorifica a autonomia individual ao mesmo tempo que construímos um Estado a quem exigimos que apareça no final para preencher todos os vazios que essa autonomia deixou.⬅️⬅️
Quando desaparece a família aparece o serviço social. Quando desaparece o filho aparece o cuidador. Quando desaparece o vizinho aparece a linha de emergência. Uma sociedade civilizada não deixa uma velha morrer sozinha porque não teve filhos. O Estado deve proteger quem é vulnerável, deve garantir cuidados, dignidade e uma rede mínima quando tudo o resto falha. Mas há uma coisa que nenhum Estado consegue aplicar por decreto.
Alguém que goste de nós.
Pode contratar alguém para nos dar banho. Não pode contratar alguém para sentir a nossa falta. Pode pagar uma residência. Não pode obrigar alguém a aparecer num domingo porque teve saudades.
⚠️Esta é a tragédia silenciosa de uma sociedade que envelhece enquanto as famílias encolhem. Vamos construindo mecanismos cada vez mais sofisticados para administrar a solidão ao mesmo tempo que perdemos as estruturas humanas que durante séculos a impediam.
Não estou a defender um regresso ao patriarcado que tantos demonizam. Estou apenas a dizer que demolimos algumas paredes sem perceber que essas paredes também seguravam o telhado.
E depois aparece a velha. E durante alguns dias a Espanha deu-he um abraço. Virtual. É esta a nossa época no seu estado mais puro. Uma multidão emocionada com a solidão de uma mulher que provavelmente voltará a estar sozinha assim que a multidão passar à próxima indignação.
É possível que daqui a um mês já ninguém se lembre do nome dela.
Mas vamos à política.
Um despejo produz imagens terrivelmente fantásticas. Uma casa que nunca chegou ao mercado não produz imagem nenhuma.
➡️➡️Não há câmaras a filmar o senhorio que decidiu não arrendar. Não há manifestações à porta do apartamento que passou para alojamento local. Não há uma senhora numa maca para ilustrar a consequência futura de uma política pública. Há apenas menos uma casa disponível e, uns meses depois, mais alguém a perguntar porque é que é impossível encontrar uma renda que consiga pagar.
É a diferença entre governar para a fotografia de hoje e governar para o mercado que existirá amanhã.
E há poucas tentações políticas maiores do que escolher a fotografia.⬅️⬅️
Ainda por cima com eleições no horizonte....
A velha permite fazer umas flores durante alguns meses. Permite discursos sobre humanidade, medidas de emergência, proibições, prorrogações e a reconfortante sensação de que o poder fez alguma coisa. Talvez algumas dessas medidas protejam genuinamente pessoas que precisam de proteção. Talvez outras tenham custos que só perceberemos quando desaparecerem mais casas do mercado. É precisamente esse equilíbrio que deveria ser discutido com seriedade.
Mas entretanto continuamos a falar da casa. Mas eu continuo a olhar para a velha.
No fim do dia, podem devolver à velha aquelas 4 paredes. Podem congelar a renda, prorrogar o contrato e garantir que nunca mais ninguém a tira dali.
Mas eu faço a mesma pergunta.
Quando chegar a noite e a porta fechar, quem fica lá com a velha??
Pessoalmente esse é para mim o verdadeiro despejo da nossa geração.
Para vossa eventual reflexão.
o dono da cooperativa
Nota: acho que a partir do dia 3/10 fico sem sem o blue check que me permite fazer textos mais longos. Não resisti a escrever isto. É difícil resistir. Obrigado pela vossa paciência.
#Bitcoin monthly chart update:
Reached our first resistance level. No big surprise that it could go sideways here.
When you zoom out, not much has happened after the pump.
Still holding structure for now. Will make a $BTC video update this morning 🤝
IRS no OE2027: redução ou correção? Vamos aos números.
Li com atenção a notícia de que o OE2027 "terá redução de IRS com atualização de escalões". É uma boa notícia, mas merece ser lida com rigor.
Para que não haja mal-entendidos, deixo aqui os factos.
O que está efetivamente proposto
Segundo a proposta divulgada:
1º escalão (até 8.342€/ano): redução de 0,3 pontos percentuais
2º ao 5º escalão (de 8.342€ até 29.397€/ano): redução de 0,5 pontos percentuais
6º escalão (até 43.090€): redução de 0,3 pontos percentuais
É sobre estes valores que incide o debate.
Entre 2013 e 2024, a atualização acumulada dos escalões de IRS foi de apenas 10%. No mesmo período, a taxa de inflação acumulada foi de 17,6%.
Só nos últimos anos tivemos:
2022: +7,83% | 2023: +4,31% | 2024: +2,42% | 2025: +2,30%
Quando os salários são atualizados para acompanhar a inflação, mas os escalões não acompanham, entramos no chamado arrastamento fiscal: passamos a pagar mais imposto sem termos mais poder de compra.
A calculadora oficial mostra bem: quem tinha 1.000€ em 2020 precisaria de cerca de 1.193€ em 2025 para comprar exatamente o mesmo.
Imaginemos uma família com rendimento de 1.500€ mensais.
Com a inflação acumulada, essa família perdeu cerca de 180€ de poder de compra nos últimos 3 anos.
Com a "redução" de 0,5 pontos percentuais no seu escalão, vai recuperar cerca de 7,50€ por mês.
É melhor que nada, e deve ser reconhecido. Mas não é o Estado a dar 7,50€. É o Estado a deixar de reter 7,50€ de um agravamento de 180€ que ocorreu silenciosamente pela não atualização dos escalões.
A medida deverá ser sentida na retenção na fonte apenas a partir de novembro de 2026, embora com efeitos retroativos a janeiro. Isto significa que durante 10 meses o desconto continuará a ser feito pela taxa antiga.
Do ponto de vista orçamental é compreensível. Do ponto de vista da família, é um adiamento da correção.
Não se trata de uma oferta. Trata-se de uma correção parcial de um aumento implícito de imposto ocorrido via inflação.
O Estado não dá. Gere. E quando corrige, está a devolver ao contribuinte parte do esforço adicional que este já fez.
Que se faça a correção e que se explique com esta transparência. É só isso que peço enquanto contribuinte.
Desde que a @traderepublic mudou para IBAN português, além de pagar impostos de selo nas transações, o dividendo de uma ADR tem retenção na fonte+retenção em Portugal, o que significa que >50% dos dividendos são retidos.
Sim, são 60 cêntimos neste caso, mas podiam (I wish) ser 600 euros.
Sim, no IRS do próximo ano isto é acertado.
Sim, há outras correntoras em que não acontece.
Mas torna absolutamente inviável ter uma estratégia de dividendos (na reforma pe) com NIB português.
In the Bitcoin Standard Era, Digital Intelligence ($NVDA), Digital Equity ($MSTR), and Digital Capital ($BTC) have delivered 65%, 52%, and 38% annualized returns, outperforming the rest of the Magnificent Seven. The future is digital.
WHATEVER IT TAKES IS DEAD: GERMANY CAN NO LONGER GUARANTEE THE EURO
France is on fire, and the euro is pricing it. A decade ago one sentence from Mario Draghi froze the crisis, because Germany still had the fiscal room to stand behind the promise. That backstop is what markets are now refusing to believe. The old periphery crisis was never solved. It was postponed.
THE CORE THESIS
➡️ The euro crisis was never over. It was rolled forward on German money and German guarantees.
➡️ In 2012 France still sat with Germany as a doctor. Today France is the patient.
➡️ Markets will not take another “Whatever it takes” seriously, because the guarantor that kept the euro from breaking is no longer strong enough to say it.
FRANCE AT THE 5% LINE
➡️ On Friday France paid as much as 4.99% on the 10-year, the highest yield since 2002.
➡️ The gap versus German Bunds hit 1.5%, the widest since the 2012 euro crisis, before snapping about 10 basis points tighter.
➡️ Italy’s spread sits near 115. Spain is moving with them. France is infecting the old periphery, not the other way around.
Street politics match the tape. About 560 schools are shut. Nearly 2,000 arrests. Students are out against education cuts while Paris tries to force through a €43 billion savings package. Two prime ministers have already failed to push austerity through.
THE 2012 TRICK
There are only two honest exits from a debt crisis. Hard reform that wins back investors. Or loss of market access, default, inflation, and a currency that takes the pain.
➡️ The euro invented a third path: hang yourself on Germany’s credit.
➡️ Draghi’s “Whatever it takes,” spoken in Sintra, did not reform Spain or Italy. It bought time with German taxpayer money and German guarantees.
➡️ An ice pack on a thermometer. The fever reading falls. The patient is still sick.
Debt ratios never came down. Spain, Italy, and above all France kept borrowing. Merkel, Scholz, and now Merz never forced the reform the guarantee was supposed to buy.
THE GUARANTOR IS THE PATIENT
➡️ France’s debt is about 120% of GDP, heading for 122% next year, above Germany and above any EU peer of similar size.
➡️ The deficit is near 6%. Maastricht has been missed for years.
➡️ Next year Paris must refinance €338 billion, a record, into a world of 5% yields instead of the zero-rate bonds it issued five and six years ago.
In 2012 the guarantee was France and Germany together. France cannot co-sign anything now. Germany is weaker than it was fourteen years ago, and it is the only name left. Rescue, if it comes, arrives in stages: a yield cap, then more money, then still more money. Each stage needs a credible guarantor. That name is used up.
THE FRIDAY CANDLE
➡️ French yields ran from about 4.72% to 4.98%, then reversed hard, while US 10-year yields rose.
➡️ The France–Germany spread peaked near 159 and slammed shut with no French political deal and no public ECB line.
The read from the chart: that candle is not a normal market candle. It looks like the same closed-door bid the ECB used in 2022, when it capped Italy and Spain under the TPI and only admitted the buying later. Joachim Nagel waved the tool through. Isabel Schnabel sold it in public while preaching independence. Christine Lagarde has a political interest in the ECB standing behind France. Conditions that were supposed to bind the program keep getting softer.
WHY THE PROMISE FAILS THIS TIME
➡️ The 2022 tool was built for a smaller crack. France is too big to fail and too big for a quiet cap.
➡️ Macron is out in 2027. Marine Le Pen leads, on a platform of a lower retirement age and lower taxes — gifts, not the reforms a backstop would demand.
➡️ Capital is already voting. If Paris will not meet the rules, the ECB promise is a slogan, not a bid.
A falling oil price might buy a week. French budget policy will not buy the decade. If the ECB has to admit it is in the market, the 2012 argument returns with it: who stays in the euro, and how much power a central bank should have.
THE BOTTOM LINE
In 2012 “Whatever it takes” worked because Germany could still guarantee the euro would not break, and France could still stand beside it. France is now the credit the ECB would have to save, and Germany is no longer the backstop markets will believe. The next three words will not freeze this spread.
#EuroCrisis #France #WhateverItTakes #ECB #BondSpreads #Germany #EuroBreakup
"Tal como prometi, decidi contar, na primeira pessoa e de forma direta, as circunstâncias que envolveram o último estágio da Seleção Nacional.
Após o Mundial 2026 preparei uma carta aos portugueses, que ainda guardo, com as palavras que lhes quero dirigir quando abandonar, definitivamente, a nossa equipa.
No final da competição, logo no voo de regresso dos Estados Unidos, o Presidente da Federação pediu e insistiu que eu ponderasse a decisão de sair porque a FPF queria que eu continuasse.
Logo a seguir pediu que lhe desse a minha opinião sobre o nome do atual Selecionador e que ele estava a ponderar, a par de outros nomes que não me revelou.
Respondi ao Presidente da Federação que, em minha opinião, seria a escolha certa.
Por isso, no dia em que o atual Selecionador foi apresentado fiquei genuinamente feliz pela escolha. Era a opção certa, como os resultados vão comprovando.
Poucos dias depois recebi um primeiro contacto do novo selecionador nacional a dizer que gostava de estar comigo pessoalmente. Respondi que sim e agendámos para o final das minhas férias.
Encontrámo-nos na Cidade do Futebol onde o meu clube fazia estágio de pré-temporada.
O Selecionador disse-me nesse dia que contava comigo e que a minha presença era fundamental para o seu projeto. Apresentou-me, logo ali, um plano para a minha participação. Disse-me que jogaria o primeiro jogo e o último e que por razões de gestão física iria fazer sempre três a quatro mudanças por jogo.
Nessa altura colocou-me a hipótese de eu não viajar com a Seleção para Noruega e Dinamarca. Propôs-me que fizesse o primeiro jogo e ficasse em Portugal, para depois me juntar de novo antes do jogo do Dragão.
Recusei de imediato esta proposta. Parecia-me evidente que não a poderia aceitar. Não seria por não jogar os jogos no estrangeiro que deixaria de capitanear a nossa equipa. Esse privilégio de ficar em Portugal não seria um bom exemplo.
O Selecionador acabou por concordar com a minha análise.
Esta conversa foi acompanhada pelo Simão Coutinho, diretor Desportivo do Al Nassr, pessoa a quem reportava o atual selecionador durante toda a época passada e um dos responsáveis pela sua contratação pelo clube em 2025.
Na véspera do estágio começar o Selecionador deslocou-se a minha casa, em Lisboa, para ter nova conversa comigo, a seu pedido. A conversa foi tranquila e todos os princípios combinados em agosto foram mantidos.
Joguei o jogo de Alvalade, e apesar de substituído, não fiz nenhum problema. Coloquei a braçadeira eu mesmo ao Bruno Fernandes, longe de imaginar que pudesse estar a dar os últimos passos, como atleta e capitão da Seleção Nacional. O importante desse dia, para mim, foi a nossa vitória. Ganhar é sempre bom, em Portugal e pelo meu País, ainda melhor.
À hora de almoço do dia do jogo na Noruega um adjunto do selecionador do veio à mesa onde o grupo estava a almoçar e informou-me que o Selecionador me queria falar. Para minha absoluta surpresa, o selecionador perguntou-me se estava bem para jogar 30 minutos. Eu estava totalmente focado na minha recuperação física, integrado com os meus companheiros como sempre e a pensar que não jogaria naquele dia. Sem nenhum problema.
Este pedido era algo fora do meu plano de recuperação física e de treino – porque apenas iria jogar dia 4 no Dragão – mas obviamente disse que sim. Respondeu-me que então estivesse preparado porque jogaria 30 min.
O resto todos conhecem. Aqueci desde o intervalo, vi os minutos a passar e não fui chamado.
O Selecionador tinha-me falhado com a sua palavra.
No fim do jogo só queria que tudo acabasse com a vitória e ficar sozinho. Não fui cumprimentar os adeptos. Uma falha que é apenas da minha responsabilidade e que não deveria ter acontecido. Peço desculpa aos portugueses que ali nos apoiaram intensamente, peço desculpa aos adeptos e peço desculpa aos que, sem serem portugueses, ali se possam ter deslocado para me ver e a quem eu possa ter desiludido.
Passado 48 horas tivemos uma conversa, eu, o Selecionador e o Simão Coutinho uma vez que tinha sido ele a acompanhar as nossas conversas de Agosto.
Foi um momento profundo, muito frontal, sem qualquer tipo de filtro.
Concordamos que só havia uma maneira de encerrar este “caso”: que o Selecionador repetisse o que acabara de me dizer ali em privado, na presença do Simão Coutinho, mas na Sala de Imprensa.
O que foi combinado era simples: o Selecionador começaria a conferência de imprensa por este tema, procurando encerrar o assunto contando a verdade. Diria que nunca pedi para jogar minutos
nenhuns, que foi o Selecionador e mais ninguém, quem me propôs o plano para este estágio e que foi um erro colocar-me a aquecer para não entrar e que se voltasse a acontecer não o faria.
Acabamos essa reunião com o Selecionador a pedir-me um abraço, a prometer-me que ia dizer na conferência o que acabara de me dizer a mim e que o assunto se ultrapassava. Eu não jogaria na Dinamarca e jogaria o jogo do Dragão. Tudo isto na presença do Simão Coutinho, sempre.
A pedido do selecionador, decorreu depois uma reunião entre ele mesmo, o Simão Coutinho e o Tiago Craveiro em videoconferência, em que se resumiu aquilo que falámos.
Foi produzido um pequeno documento que eu mesmo validei e que, com o meu conhecimento, foi entregue ao Selecionador, tal como ele havia solicitado.
A conferência foi o que se conhece: a postura não teve nada a ver com a nossa reunião, ouvi expressões e uma agressividade que julgo não merecer, uma atitude de quero, posso e mando que nunca me manifestou, nem de perto nem de longe, em privado, na véspera.
As notas que validei eram as seguintes:
“Acho importante, até porque é a verdade, esclarecer algumas coisas antes de falar da Dinamarca:
1. Propus ao Cristiano eu mesmo, sem mais ninguém, um plano para ele, esta época desportiva, na Seleção Nacional. Foi uma conversa demorada e muito boa.
2. Sei o quanto ele vive e Ama a Seleção e o peso que tem no Mundo, mais ainda, o peso e a influência positiva que tem na Seleção há 24 anos consecutivos.
3. O plano que propus ao Cristiano foi aceite.
4. Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional.
5. Do plano que tracei para ele não constava o jogo da Noruega. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O Cristiano concordou.
6. Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria.
7. Para encerrar o assunto: Eu quero o Cristiano na Seleção Nacional. Aliás não quero pouco, quero muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al Nassr e aqui também.
8. Sobre não ter cumprimentado os adeptos. Já falámos sobre isso. Quem faz mais de 230 jogos pela Seleção não recebe de mim lições de Amor a Portugal. Foi um momento de frustração que não apaga coisa nenhuma. É o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira, que mais acarinha os adeptos. Não inventemos problemas onde eles não existem. Quando não estamos contentes reagimos. Foi só isso.”
Nenhuma destas notas dizia, portanto, que o selecionador me pedisse sequer desculpa.
Era a segunda vez, que me estava a faltar à palavra dada.
Decidi abandonar o estágio sem esperar por mais nenhuma quebra de palavra. Para mim a verdade ainda é a coisa mais importante na relação entre as pessoas. Por muito que doa, que me digam a verdade.
Aliás, numa conversa que mantive com o Presidente da FPF e com o Selecionador na manhã do dia dessa conferência de imprensa, podem confirmar seguramente, reafirmei que se não me quisessem ali mo dissessem. Bastava serem francos comigo. Eu aceitaria isso e prometi que prepararíamos algo bonito, como sonho que aconteça, e ninguém ficaria zangado.
Lembro-me como se fosse hoje. Responderam em uníssono que não. Que o meu lugar era na Seleção Nacional.
Nunca, em nenhum momento me intrometi em qualquer decisão técnica ou tática de qualquer treinador ou selecionador em quase 25 anos de carreira. Aceito é melhor ou pior o que me propõem fazer. Respeito a decisão e quando me faltam à palavra, sinto que o meu lugar não é ali.
Devo também um pedido de desculpas aos meus companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio. Apesar da absoluta quebra de confiança na palavra do Selecionador, como poderá testemunhar quem assistiu a estas conversas, eu não o devia ter feito. A responsabilidade é exclusivamente minha.
Peço desculpa aos portugueses mais uma vez, mas a quebra da palavra tem, para mim, um impacto definidor. Senti que, a partir dali, a minha permanência iria apenas prejudicar o grupo de trabalho e fiz o que sempre disse que faria se não me sentisse útil: peguei nas malas e saí.
A consequência deste meu ato deve ser avaliada e punida pela Federação Portuguesa de Futebol. Entendo que a punição não deve ter atenuantes. Não sou um jogador qualquer, sou capitão de equipa e isso constitui uma agravante. Já pedi desculpa, mas sei que as atitudes têm de ter consequências. Quem está no futebol como estou sabe que, independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos.
A este propósito, tenho ouvido muito falar em jogos de despedida, que tenho que ter uma despedida digna e que a Federação me quer dar essa oportunidade.
Aprendi na vida, com fome e sem nada para comer muitas vezes, que ninguém dá nada a ninguém.
Posso prometer a todos os meus fãs, naturalmente e em especial a todos os portugueses, que faremos um ou mais jogos de despedida, haverá tempo para isso.
Mas quando penso na seleção o que eu penso mesmo é em competir. Foi nisso que pensei no dia em que me deram a notícia da morte do meu Pai. Estava em estágio da nossa Seleção e lá decidi ficar até terminar o jogo do dia seguinte. Fiz por isso pelo País o que jamais faria por clube algum.
Portanto se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção.
Esta é, acreditem, a mais pura das verdades.
Cristiano Ronaldo
6 de Outubro de 2026"