Sim, claro, antes da iFood não existia entregador na pizzaria do bairro. Além disso, o iFood inventou uma tecnologia chamada bicicleta, criada especialmente para ser usada em entregas.
Agora, saindo da provocação e indo para o debate real: o Brasil sempre conviveu com uma economia de subsistência que usa uma enorme massa de trabalhadores abandonados pelo Estado, pessoas que se submetem a qualquer coisa porque a alternativa é a fome e a miséria.
Hoje, são as plataformas que cumprem esse papel de exploração.
O ponto é que não temos que tolerar mais isso. Temos que discutir como e onde gerar empregos com dignidade. Como o Estado pode atuar, seja como empregador direto, seja induzindo bons empregos.
Alguém pode argumentar que o atual estágio da automação torna impossível gerar empregos para todos.
No capitalismo, ao que tudo indica, sim. Na verdade, no capitalismo neoliberal sem freios, certamente.
A questão é que o avanço da tecnologia não deveria ser tratado como sinônimo natural de desemprego. O desemprego não é uma lei da natureza. Não é inevitável. É uma invenção e uma necessidade do capitalismo, o primeiro sistema que produziu miséria em meio a uma enorme abundância e que usa a tecnologia criada pelos seres humanos para escravizá-los.
Em um mundo minimamente digno, os ganhos de produtividade da automação, da inteligência artificial ou de qualquer nova tecnologia deveriam servir para reduzir fortemente a jornada de trabalho, garantindo mais tempo livre, mais direitos, mais qualidade de vida e mais possibilidade de viver.
Mas, no nosso mundo, a tecnologia inventada pela classe trabalhadora não é usada para que ela tenha mais tempo para descansar, estudar, conversar, se divertir ou sonhar.
É usada para explorar ainda mais a própria classe trabalhadora.
A uberização da nossa classe trabalhadora deveria ser tratada com seriedade. Não como algo natural. Não como “alternativa ao desemprego”, como se o desemprego também fosse uma força da natureza.
Deveria ser um dos eixos do debate eleitoral. Deveria ser. Mas, infelizmente, há uma interdição no debate econômico brasileiro. O pavor da extrema direita nos paralisou. Não conseguimos ver além do “neoliberalismo progressista” como alternativa à destruição fascista.
Os grandes temas e desafios foram jogados para baixo do tapete. Só se discute qual será a próxima medida de ajuste fiscal, ou quando virá a redução da taxa de juros do Banco Central que fará a economia brasileira encontrar seu rumo. Aliás, é bizarro a esquerda achar que é a redução da Selic que desenvolve um país, em vez de tratar isso como uma condição necessária e absolutamente insuficiente. Mas vamos voltar ao tema.
A questão é que enquanto esses debates de superfície hegemoniza o imaginário da esquerda, as classes dominantes moem o nosso povo.
Somos um país dominado pelo agro, que quer que o mercado doméstico se foda, que o meio ambiente se foda, porque exporta soja para a China fazer ração para porcos. Tudo isso com destruição de territórios, muito dinheiro estatal e concentração brutal de renda. A grana da exploração vai para formar bancadas políticas que defendem a nossa dependência e subordinação com orgulho.
Claro, o setor primário-exportador também tem as mineradoras, que arrancam nossas riquezas e destroem o meio ambiente, deixando a conta da destruição para o povo.
Do outro lado, vistos como mais modernos e elegantes, sediados na potente São Paulo, estão os bancos, tomando o dinheiro da classe trabalhadora com as taxas de juros mais altas do planeta.
Ou seja: de um lado, um setor primário-exportador que aparelha o Estado, concentra riqueza, não gera porra nenhuma de emprego decente e ainda deixa um passivo ambiental brutal para o povo pagar.
De outro, um setor rentista que toma o pouco que os trabalhadores têm por meio de juros criminosos.
Como gerar empregos bons para o nosso povo no meio disso tudo? Não tem como. Com essas duas frações dominantes organizando o país, sobra um bolsão de desesperados. E esse bolsão, em vez de ser tratado como um problema nacional gravíssimo, vira matéria-prima barata para as plataformas, que têm se tornado a terceira força dessa tríade da destruição.
É assim que o Brasil se torna, ao mesmo tempo, paraíso do agro, dos rentistas e das empresas de aplicativo. Um país com gente demais precisando aceitar qualquer coisa para sobreviver.
Não está tudo bem só porque o desemprego vem caindo desde 2021. Os empregos gerados são uma merda. O trabalhador ganha mal. Está endividado até o pescoço. Trabalha muito. Não tem tempo de viver. Não tem tempo de estudar. Aliás, estudar para quê, em um país que não tem muito a oferecer aos pobres além de uma CLT destruída pela já naturalizada contrarreforma de Temer em 2017 e uma vida esmagada pela escala 6x1?
A pergunta correta não é o que essas pessoas fariam sem Uber, iFood ou 99.
A pergunta correta é que tipo de país aceita que milhões de trabalhadores só tenham como horizonte pedalar, dirigir e se arriscar todos os dias sem direitos, sem proteção e sem futuro.
Não há nada que aponte que processamento de inferência com LLM irá ficar mais barato. Não está acontecendo nenhuma tendência de queda nos modelos de raciocínio. Tudo que existe é uma crença na otimização que depende de N fatores. Uma expectativa, só isso. E pode ser que ela aconteça, mas não sabemos se vai acontecer.
O que acontece é sempre uma avaliação equivocada dos números. É um fato que a saída dos modelos, em parte, está ficando mais "barata" em comparação a modelos antigos por ser "melhor". Mas isso é totalmente diferente de afirmar que os modelos estão ficando mais baratos.
Com pequenas exceções, todas as versões do modelo continuamente tendem a subir uma ascendente de preços. E eu não sei da onde você estão tirando que o preço está caindo.
No Google, por exemplo, todos os modelos, estão apontando sempre para cima.
Na Anthropic teve dois momentos de queda seguidos por aumentos (coincidentemente com os piores modelos 3.5 e 4.1). Mas ela tenta, na maioria das vezes, se manter estável no preço. Seguindo a tendência é possível que os próximos haiku/sonnet tenham aumento e o próximo opus estabilize para aumentar de novo depois.
Já a OpenAI tem momentos curiosos. Momentos antes dos modelos "reasoning" e pós modelos "reasoning". LLM como são, sem cadeia de pensamento, estavam ficando mais baratos sim. Uma tendência de queda acelerada, incluindo os modelos open source.
Mas desde o GPT-5, a tendência também é de aumento (mesmo que menos acentuado que o Google e a Anthropic). Dizem que eles fazem mais "subsídios" internos, mas não tem como saber.
Mesmo em modelos como o Minimax, GLM, Qwen, também existe tendência de aumento. Então, não sei da onde estão tirando que os modelos estão ficando mais baratos.
Vale lembrar que na era pré-reasoning, a tendência era sempre de queda, mesmo em diferentes versões. Os modelos ficavam mais baratos. Desde a introdução da cadeia de pensamentos, não é o que acontece agora.
Você precisa conversar mais com as pessoas ao seu redor. Você acha que elas partilham da mesma realidade que você e que possuem os mesmos conhecimentos básicos que o seus, mas isso não é verdade e essa foto é uma prova disso. O óbvio também precisa ser explicado porque ele é só é óbvio para você.
Três coisas que descobri que adultos com ensino superior e CNH categoria A com frequência não sabem:
- Usar os botões do elevador.
- Usar o ar condicionado.
- O significado das faixas pintadas no asfalto das vias públicas.
Como alguém poderia entender isso errado? Eu conversei com vários e te explico os entendimentos errados mais comuns que encontrei:
No elevador, muitos acham que você tem que pressionar o botão no sentido que deseja que o elevador se movimente para buscá-lo.
Se essa pessoa está no quinto andar e quer ir para o térreo, se o elevador estiver no primeiro andar, ela apertará para cima para que ele venha buscá-la em vez de pressionar o botão para baixo, indicando corretamente o sentido do destino que deseja.
Outro grupo por tentativa e erro descobriu que se pressionar os dois botões o elevador vem mais rápido (porque ele parará independente do sentido do destino final dele). Então deduziram que o segundo botão é para manifestar pressa. Como se alguém tivesse motivo para abdicar dela apertando um só. Nem a monja Coen abdicaria.
Quanto ao ar condicionado, muitos não sabem que a temperatura em graus Celsius definida é um objetivo que a máquina trabalhará para atingir. Acham que por um valor baixo, como 18, fará que o ambiente gele mais rápido como se fosse um velocímetro invertido (menor significaria mais rápido), não que chegue na temperatura de 18.
Outro erro comum que encontro em adultos é não entender que é necessário reduzir o volume cúbico do espaço e evitar o escape do ar gelado para que o aparelho funcione bem. Então deixam portas e janelas abertas e ficam frustrados do porquê o ambiente ainda está quente. Sim, são burras a esse ponto.
Sobre a sinalização horizontal no asfalto, muitos não sabem que a faixa amarela indica mão dupla e a branca mão simples e a diferença da contínua para a pontilhada.
Dirigem por aí impunes, não tendo uma gota de curiosidade do porquê do nada a estrada ficou pontilhada ou trocou de cor. Ou porque algumas ruas tem faixa amarela e outras branca.
Acham que são escolhas estéticas de quem pintou no momento. Imagino o funcionário da prefeitura de macacão jeans manchado de amarelo e branco, pincel pendurado na orelha, um olho fechado enquanto morde um dos lábios fazendo silêncio em meio aos cones laranja que interditam a via tentando decidir: aqui tem cara de branco? Não, não, essa travessa pede por riqueza e prosperidade. Amarelo! Traga o amarelo-ouro, Genilson!
Todas que entrevistei fizeram a autoescola e passaram na prova do DETRAN sem fraude. E ficaram incrédulas quando digo que isso é ensinado no curso e cai na prova.
Uma menção honrosa que não pus no rol porque só conheci uma pessoa que conhecia isso, mas partilho aqui convosco. Semana do Natal, carro cheio, shopping cheio sem vagas. A única livre tinha pintado no chão o símbolo de cadeira de rodas. Uma voz do banco de trás diz:
- "Ah, estacione aí mesmo! Nunca vi uma cadeira de rodas nessa vaga..."
Mãe de 2 filhos com ensino superior, classe média, daquelas que frequenta clube. Na cabeça dela, o cadeirante estaciona a cadeira nessas vagas azuis e vai rastejando até o shopping. Sim, pode rir. É um raciocínio risível.
Todas essas pessoas veem os mesmos filmes que você, as mesmas notícias, os mesmos candidatos nas eleições. Mas elas não decodificam o mundo como você. Elas partem de pressupostos errados e chegam a conclusões erradas.
Somente conversando de peito (e ouvido) abertos, é que a gente descobre esses fiapos soltos e ajuda esses que são de pensamento mais devagar a apará-los.
As ações e decisões deles sobre o mundo afetam você também: o elevador demora mais, o ar condicionado não gela, o carro colide frontalmente contigo na contramão, um mau político tiktoker é reeleito.
A boa conversa com troca de informações é a única salvação para nossa espécie.
O governo americano acaba de autorizar que a Ucrânia utilize mísseis de longo alcance para atingir o território russo.
E de acordo com o Le Figaro, a França e o Reino Unido também concederam essa autorização para os seus mísseis de longo alcance.
Essa é a notícia mais importante do dia – e estou sendo bastante econômico na descrição. Nós estamos às vésperas de assistir um país com arsenal nuclear ser atacado por mísseis de longo alcance por mísseis de diferentes nações inimigas.
Até aqui, nós chamamos esse capítulo de dissuasão nuclear. Mas os livros precisarão ser reescritos para incluir esse episódio.
Essa não é a primeira vez que o conflito Rússia-Ucrânia bagunça a nossa compreensão sobre as relações militares. Até 2014, não havia um caso de país que abrigasse uma unidade do McDonald’s atacando outro país que abrigasse outra unidade do McDonald’s. Mas a Teoria dos Arcos Dourados – que tentava provar a superioridade da ordem internacional liberal na manutenção da paz – chegou ao fim com o ataque russo à Ucrânia em 2014.
Biden passou os últimos anos negando o direito à Ucrânia utilizar mísseis de longo alcance contra o território russo porque tem receio que isso provoque uma escalada militar – e que essa escalada se transforme numa guerra nuclear. Em 2022, a Rússia ameaçou esse caminho.
Mas Donald Trump foi eleito. E desde que isso aconteceu, Vladimir Putin está acelerando a guerra –provavelmente porque entende que Trump beneficiará Moscou no conflito.
Desde a eleição de Trump, a Ucrânia sobrevive a um aumento considerável de ataques por parte da Rússia. Só os ataques com drones aumentaram 44% no período.
Nessa última madrugada, a Ucrânia sofreu um dos maiores ataques em todo conflito – direcionados à rede elétrica do país, para que os civis sofram com o frio congelante, no inverno que bate à porta da Europa. A ONU condenou os ataques.
Além disso, há 10 mil soldados de elite norte-coreanos em Kursk, na fronteira com a Ucrânia, preparados para ajudar Moscou a tomar o território ucraniano.
Moscou também está usando o apoio do Irã contra Kyiv.
Na campanha presidencial, JD Vance, o vice de Trump, revelou que o plano republicano para o conflito era forçar a Ucrânia a entregar para a Rússia os territórios que já estão sob controle russo.
Putin se preparou para esse momento. E quer sentar à mesa com Zelensky com o máximo de territórios possíveis. O cerco está armado.
Diferentes líderes europeus protestam contra a escalada russa porque entendem que Moscou não parará a sua ambição territorial na Ucrânia – o objetivo de Putin é reconstruir a União Soviética/Império Russo. O líder alemão Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata da Alemanha, também está sendo bastante criticado pela postura com a Rússia – nos últimos dias, ele negou categoricamente o envio de mísseis alemães de longo alcance para a Ucrânia.
Agora, Biden – que está no Brasil – autoriza o uso de mísseis de longo alcance para frear a escalada russa, pressionado pelos aliados europeus. Moscou deverá responder a essa posição com uma ameaça nuclear. Esse pode ser o pico do conflito.
Em setembro, Putin disse que se o Ocidente autorizasse a Ucrânia a usar mísseis de longo alcance contra a Rússia, Moscou entenderia esse movimento como uma declaração de guerra do Ocidente. E guerra contra o Ocidente, na ameaça de Putin, tem o mesmo significado que guerra nuclear.
Longe do mundo retórico, como os russos reagirão a um ataque dessa natureza? Quais serão os alvos no território russo? Moscou será atingida? Os ataques serão mínimos, com o objetivo de dissuadir os russos a evitarem uma escalada? Kyiv mostrará força para impor medo? Os ataques serão direcionados apenas contra alvos militares?
Nós descobriremos essas respostas nos próximos dias.
São quase 3 anos de conflito em que a Ucrânia só se defende do ataque russo. Mas o contra-ataque parece estar a caminho.
Nós chegamos no ponto em que a humanidade passou as últimas 7 décadas evitando.
Se alguém ainda tinha alguma dúvida, ela não existe mais: este definitivamente não é um conflito regional.