QUAEST: AGENIAL PESQUISA QUE UM BANCO COMPROU
Entre os dias 5 e 8 de junho, entrevistadores bateram em 2.004 portas de 120 municípios brasileiros. Fizeram 106 perguntas dentro de cada casa. Sobre voto, sobre o governo, sobre imposto de renda, sobre o Banco Master, sobre Trump, sobre facções, sobre Pix, sobre bets.
Quem pagou a conta foi um banco. R$ 433.255,92, nota fiscal número 353, contratante Banco Genial. Dá R$ 216 por porta batida. No dia 10, o país recebeu a manchete: Lula 39, Flávio 29. Ponto final, eleição encerrada, podem ir para casa. Eu não fui para casa. Fui ler o registro no TSE, a pesquisa BR-07661/2026, assinada pela estatística Margarida Maria de Mendonça, CONRE 6731.
Fui ler o questionário inteiro, as 106 perguntas, uma por uma. Cruzei a amostra com o TSE e com a PNAD, refiz a margem de erro com o desenho amostral real, reponderei a renda, montei o balanço de transferência do segundo turno.
E descobri duas coisas.
Primeira: a Quaest fez o melhor trabalho de campo do ciclo, e vou dizer isso com todas as letras.
Segunda: as perguntas mais explosivas do questionário, se Bolsonaro deveria trocar Flávio e o que acontece se Trump o apoiar, foram feitas, registradas, pagas. E nunca publicadas.
Alguém sabe essas respostas. Você não.
Siga o fio!
Existem culturas, como se sabe, que abominam o cão. Para elas, o animal é pouco mais que um porco de quatro patas, portador de imundície e mau agouro. Eu, ao contrário, trago-o desde a infância como um herói intemporal, desses que resistem ao ridículo do tempo. Meu imaginário infantil foi colonizado por duas produções americanas de 1954, Rin Tin Tin e Lassie, relíquias da era dourada da televisão em preto e branco, quando o sentimentalismo ainda não precisava pedir desculpas por existir.
Rin Tin Tin era um pastor alemão magnífico, e a série era ambientada no Velho Oeste do fim do século XIX. Um órfão e seu cão, adotados pela Companhia B de Cavalaria. O animal enfrentava bandidos, saltava janelas com precisão militar, corria em busca de reforços quando a tropa caía em emboscada. Defensor da lei e da ordem, sem as hipocrisias contemporâneas. Um herói, enfim, à moda antiga.
Lassie, por sua vez, era uma collie de beleza quase ofensiva, guardiã de outro órfão, o pequeno Timmy. Drama familiar de receita simples: o menino se metia em apuros, caía num poço, perdia-se na floresta, e a cadela, com inteligência quase aristotélica, alertava os adultos e conduzia-os ao local do desastre. Havia naquilo uma doçura previsível, mas eficaz. Eu me rendia, confesso, tanto à doçura do olhar quanto à lealdade canina, essa virtude rara que os homens, na sua infinita capacidade de traição, invejam secretamente. O que me fascinava, no fundo, era precisamente isso: a demonstração desinteressada de afeto, a pureza daquele olhar úmido, sem cálculo, sem segundas intenções.
A lealdade do cão continua a ser uma das poucas coisas neste mundo que ainda conseguem surpreender e, de certo modo, envergonhar a espécie humana.
Meu afeto por eles tem, obviamente, razões biográficas. Também eu fui, a meu modo, órfão de pai. Mas não é só isso. Na cultura ocidental, o cão é, em regra, mais herói que vilão. Claro que há exceções ilustres: Cérbero, o monstro tricéfalo das portas do Hades; o cão de Drácula; os cães zumbis de Resident Evil; ou a quadrilha de dobermanns de The Doberman Gang, filme de 1972 que ainda hoje diverte os cinéfilos de mau gosto. Mas são desvios. O cão serve para tudo: ação, companhia, guia de cegos, polícia, exército, circo, pastoreio, e até para prever terremotos e tsunamis.
Chegamos, por fim, ao cúmulo da nossa época: os cães políticos. Um deputado mineiro, com a finura intelectual que caracteriza a nossa classe política, chamou de cães os bolsonaristas os críticos que o incomodam, abrindo uma nova categoria para os cães: a categoria de militantes.
Enfim, o Brasil é assim: transforma tudo em palanque, inclusive a zoologia. Por tudo isso, confesso sem o menor constrangimento: não me ofendo quando me comparam a um cão. Pelo contrário. Sinto-me lisonjeado. Amável, brincalhão e, sobretudo, leal. Ah, a lealdade, um virtude que, no homem, é quase um anacronismo. Au-au, portanto.
Apenas não me atirem uma bola. Não tenho a menor intenção de sair correndo atrás dela como um idiota. Ainda conservo algum resquício de dignidade.
Sem vocês, essa caminhada não teria a mesma força. Cada mensagem, cada apoio e cada gesto de confiança fazem toda a diferença.
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